quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Escritoras: vozes e visões, de Virginia Woolf a Clarice Lispector e as escritoras da geração Beat
[...] pensei no órgão ressoando na capela e nas portas fechadas da biblioteca; e pensei em como é desagradável se ser trancada do lado de fora; e pensei em como talvez seja pior se ser trancada do lado de dentro; e, pensando na segurança e na prosperidade de um sexo e na pobreza e insegurança do outro; e no efeito da tradição e na falta da tradição na mente de um escritor , pensei finalmente que era hora de recolher a carcaça amarfanhada do dia , com suas discussões e impressões e sua raiva e seu riso; e atirá-la num canto. Milhares de estrelas cintilavam nos ermos azuis do céu. Parecia que estava a sós com uma companhia inescrutável.”
Virginia Woolf, Um Teto todo Seu.
Parto deste epigrafe, retirado do famoso ensaio da Virginia Woolf sobre o fazer literário e as mulheres, sobre os efeitos materiais e simbólicos de se encontrar “do lado de fora” das instituições do saber e do cânone. Talvez a primeira manifestação modernista deste tipo, é com certeza uma das mais belas e serve para inspirar estas resumidas reflexões sobre a emergência histórica de vozes e visões femininas. Isto é, vou falar sobre como vozes de mulheres irrompem no palco – parto histórico difícil! – da “tradição” literária e filosófica, e da teoria social moderna também, a conquista da posição de interlocutora/s. É um processo que pertence de uma forma particular à história do século XX e como tal, faz parte das conquistas do feminismo – o que de nenhuma maneira equivale dizer que todas as mulheres que conquistam este espaço se identifiquem como feministas ou com o feminismo. Ainda mais, o reconhecimento da importante produção de textos escritos por mulheres, produção que vai in crescendo ao longo do século, também dista muito de representar uma defesa do conceito de “escrita feminina” – importante discussão que se deu na crítica literária feminista sobre a possibilidade de identificar formas narrativas particularmente “femininas”, mas que produziu uma serie de problemas, como bem alerta a crítica literária argentina Alejandra Josiewicz. 1 Quando falo aqui sobre mulheres escritoras, não parto do princípio de formas de escrever necessariamente compartilhadas por elas senão aponto para a conquista de novos lugares da fala, lugares nos quais as experiências diversas vividas por mulheres diversas e diferentes entre si, gozam de nova legitimidade. Ler o que elas escrevem nos permite então apreender outras experiências e por vezes modificar concepções da vida individual e social que foram – como Virginia Woolf e Simone de Beauvoir tão bem nos alertaram – historicamente formuladas a partir de experiências masculinas, apoiadas em formas informais e institucionais de exclusão. Como noutro lugar já escrevi (Adelman, 2007), focalizo aqui a contribuição de escritoras modernistas - mulheres que “produziam cultura” (strito sensu) basicamente na fase que vai desde as últimas décadas S.XIX até o momento da revolução da “segunda onda feminista”. O que vai se produzir a partir principalmente deste segundo momento é o contexto de escuta. Como veremos aqui, à maneira de conclusão, é que o legado das pioneiras virá a fruição nesse novo momento em que muitas mulheres – como parte de um movimento que se faz massiva – ganham acesso aos espaços institucionais da cultura. Um ganho, mas também uma batalha que continua hoje...
O texto completo desta fala - proferido no dia 10 de dezembro de 2011, no evento A Hora da Clarice, na Livraria da Casa, Curitiba - vocês encontram no
http://ufpr.academia.edu/MiriamAdelman/Papers/1232323/Escritoras_de_Virginia_Woolf_a_Clarice_Lispector_e_as_escritoras_da_Geracao_Beat
Colegas, vamos compartilhando nosso trabalho!!
abraço, Miriam
terça-feira, 8 de novembro de 2011
RELACIONAMENTOS E RELAÇÕES * por Miriam Adelman e Lennita Ruggi
TEXTO APRESENTADO NO XVIII CONGRESSO BRASILEIRO DE PROFESSORES DE FRANÇÊS, Curitiba, Outubro de 2011.
O tema dos relacionamentos amorosos é assunto de conversação preferido para muitas pessoas atualmente. Certo dia, meu amigo G., um francês que viveu na África durante certo tempo e que acredita ser uma autoridade no continente, me falou de seu desejo de abraçar a poligamia. Ele acredita resolutamente ser impossível satisfazer seus desejos – sexuais, emocionais, intelectuais – com apenas uma mulher. Isso não me surpreendeu, pois conheço bem a pessoa e suas bizarrices. Também conhecia um livro a respeito da história do imaginário ocidental masculino sobre o “harém” chamado “Sheherazade Goes West”, da socióloga e escritora marroquina Fatema Mernissi. O livro descreve uma longa tradição discursiva das fantasias masculinas: os homens se imaginam cercados por mulheres belas, sensuais, sexuais e jovens, sempre disponíveis a sua busca por prazer. Foi por isso que não hesitei em contestar meu amigo: “O que pode parecer interessante para você não será jamais a escolha das mulheres”.
Foi assim que nasceu minha grande curiosidade pela realidade das mulheres e das famílias africanas que vivem sob estrutura poligâmica. Conhecia tão somente os textos de Mernissi, suas memórias que descrevem principalmente situações nas quais as mulheres empregam métodos ora engenhosos ora violentos para resistir ou ridicularizar as regras e costumes patriarcais. Ela afirma, por exemplo:
"In my native Fez medina, women staged huge uproars when their husbands married a second wife, holding funeral-like protests, during which their friends and relatives wailed along with them in the harem courtyards. The fact that polygamy is institutionalized by male law does not make it emotionally acceptable to women. Many queens, as historians have written, suffocated or choked their husbands’ plans to acquire a second wife, or when the rival actually arrived in the home. Still other historical records show that it was often the women who were the victims of [another woman’s] jealousy.” (p. 156)
"In my native Fez medina, women staged huge uproars when their husbands married a second wife, holding funeral-like protests, during which their friends and relatives wailed along with them in the harem courtyards. The fact that polygamy is institutionalized by male law does not make it emotionally acceptable to women. Many queens, as historians have written, suffocated or choked their husbands’ plans to acquire a second wife, or when the rival actually arrived in the home. Still other historical records show that it was often the women who were the victims of [another woman’s] jealousy.” (p. 156)
Depois de um tempo, conheci um professor africano, diretor de um colégio em um dos países mais pobres do oeste da África, Burkina Faso. Um dia, lhe perguntei sobre poligamia, sobre as visões e testemunhos locais. O professor, muito reflexivo, respondeu inicialmente a partir de sua própria experiência:
“...com base em minha educação, será muito difícil falar do assunto sem tomar partido, pois na família em que fui criado tudo corria bem. Eu me sentia muito feliz com minhas duas mães. A prova é que agora que minha própria mãe esta morta, vivo sempre com a impressão de ter outra mãe”.
Posteriormente, ele me ofereceu sua ajuda para obter uma perspectiva “mais realista” sobre a questao, realizando uma sondagem junto a seus/suas estudantes a fim de compreender melhor a evolução dos pontos de vista da juventude. Tendo em conta os imponentes efeitos de transformações históricas e a globalização mundial, os primeiros resultados da enquete não me pareceram relevantes: dos 159 alunos e alunas de 11 a 14 anos de idade ou mais, 14,46% são “a favor da poligamia” (16,98% dos rapazes e 9,43% das moças) e 85,54% (83,02% dos rapazes e 90,57% das moças) são “contra”.
Antes de mais nada, de acordo com os informações conhecidas, as sociedades que praticam a poligamia a poliginia é quase exclusiva. O homem se casa com mais de uma mulher; a situação inversa é pouco comum. Se para meu amigo Senhor G., perfeitamente feliz com seu imaginário “orientalista” (para retomar o conceito de Edward Said enriquecido pelos argumentos de Mernissi!) e liberal, a poligamia pode oferecer “as mesmas possibilidades” de liberdade e de prazer a homens e mulheres. Mas sinto que seu argumento não é consistente... Sua proposta é uma possibilidade quase exclusivamente teórica frente à realidade histórica e cultural do poder patriarcal e seus desdobramentos religiosos e econômicos, entre outros.
É possível também raciocinar a partir de outros critérios, como os utilizados por uma das estudantes participantes da enquete em Burkina Faso. Ela faz parte do pequeno grupo que se declarou “a favor da poligamia”:
“Eu sou a favor da poligamia porque se estivesse no lugar do meu pai eu deveria me casar com duas mulheres, pois se você se casa com apenas uma mulher, no caso dela ser estéril ou dela falecer, o que você fará? Uma família poligâmica possibilita ter muitas crianças e garante que você tenha companhia quando for velho”.
Esse testemunho oferece uma perspectiva sobre a poligamia, bastante diversa daquela que tem como base a paixão/o amor romântico – um outro mito de nossa cultura ocidental moderna, situado no nascimento do individualismo, da família em sua versão burguesa e protestante, além de possivelmente relacionado a novas formas de domesticação das mulheres. No enunciado acima podemos observar a importância de questões materiais, das necessidades de sobrevivência das pessoas, de suas preocupações com a reprodução das gerações – e talvez também de formas de solidariedade desconhecida para nós, “ocidentais”. Os ditados populares a favor da poligamia, « quand un c’est bon, deux sera meilleur » (onde um bom, dois será melhor), contrastam enfaticamente com nosso “três é demais”.
Um dos rapazes entrevistados reconhece que a poligamia é assunto polêmico, objeto de discussões acirradas. Em sua opinião, a poligamia é boa por ser “o melhor plano de reinserção social que pode existir”, igualmente benéfica para homens e mulheres, pois representa “uma instituição de proteção das pessoas divorciadas, viúvas e órfãs”. Relativizando o modelo de família nuclear burguesa, sua declaração exige repensar as expectativas familiares com que encaramos a poligamia: “O número de pessoas não é determinante na harmonia da vida de um lar. Enfim, eu penso que a qualidade de um lar não é determinada pela quantidade de pessoas que o compõe, mas pela qualidade de seus membros”.
Ao mesmo tempo, é relativamente fácil reconhecer a dimensão pragmática da tradição discursiva a favor da poligamia, na qual “a mulher é uma mão de obra produtora de outras mãos de obra”, nas palavras de outro participante da enquete. Assim, esterilidade, infidelidade ou morte são alguns dos principais argumentos a sustentar a “necessidade” de um homem “ter” mais de uma esposa.
As/os estudantes de Burkina Faso que se posicionaram de maneira contrária à poligamia a constroem como a-normal, em contraste com a norma, usando palavras como “desordem, pobreza, discórdia, ciúme, dor, doenças, problemas”. Essas são reprovações diretamente ligadas a perspectivas religiosas, nas quais a poligamia “é portanto fonte de tristeza em todos os níveis”.
Enquanto para os/as favoráveis à poligamia importava a quantidade de filhos/as, para os/as contrários a qualidade da criação é muito mais relevante. O acúmulo de mulheres e consequentemente de crianças, em meio a recursos limitados, é visto como causa de diversas problemas sociais: “crianças de rua, mendicância, criminalidade”. A preocupação social é paralela aos argumentos relacionados a expectativas afetivas: “como será a gestão do homem frente a suas esposas em termos de amor?”
Partidários e contrários à poligamia concordam que todas as mulheres têm direito ao amor, a controvérsia reside em saber se é possível justiça no terreno do coração, ou se as preferências criarão inveja e amargura. Nas palavras de uma moça : “a poligamia é um pecado, pois Deus criou o homem com uma única alma. Como um único coração pode amar dois corações por vez?”
A poligamia institucionalizada torna mulheres casadas vulneráveis às decisões oscilantes de seus maridos. “Eu não gostaria de ter uma co-esposa em minha vida, afirma uma das moças entrevistadas. O mesmo pensava Rami, personagem do romance Niketche: uma história de poligamia da moçambicana Pauline Chiziane.
Após vinte anos de casamento, Rami descobre que o marido, por quem espera em longas noites de sofrimento, têm mais do que uma amante: tem outra família. Insatisfação e curiosidade a fazem buscar a outra, descobrindo que também essa foi preterida em favor de uma terceira. A investigação amorosa de Rami a leva ao encontro de quatro outras esposas, que vivem em concubinato sem qualquer proteção legal. Ela exige que o marido institucionalize a traição e torne pública sua poligamia, apelando para as tradições que a dão direto a uma fatia proporcional do tempo de seu amado.
Gerindo a nova família ampliada com poderes de primeira esposa, Rami se aproxima das rivais e paulatinamente as ajuda a conquistar independência financeira, fortalecendo suas aspirações em favor de um amor menos ingrato. A disputa pelo marido se transforma em má vontade para com ele, chegando ao ponto das esposas decidirem pela necessidade de um sexto casamento, ajudando inclusive a escolher a nova integrante da família – recusada pelo marido.
Chiziane demonstra como o tempo é um fator poderoso das relações familiares e como mesmo uma traição pode se transformar em espaço para relações significativas entre mulheres presas nas amarras da poligamia, exigindo repensar as abordagens dicotômicas e leituras superficiais.
Nas obras de Mernissi e das senegalesas Mariama Bá e Fatou Diome, a poligamia também não é apreciada pelas mulheres. Ao contrário: ela é claramente representada como um sistema que produz sofrimento e limita a liberdade, as escolhas e as ações das mulheres. Por vezes, ela está na origem das piores humilhações ou brutalidades. Ramatoulaulaye, personagem do romance de Marima Bá, Une si longue lettre, ao refletir sobre sua própria experiência e a de outras mulheres vivendo em estruturas poligâmicas, revela um outro ponto de vista:
"...being the first pioneers of the promotion of African women, there were very few of us. Men would call us scatter-brained. Others labeled us devils. But many wanted to possess us. How many dreams did we nourish hopelessly that could have been fulfilled as lasting happiness and that we abandoned to embrace others, those that have burst miserably like soap bubbles, leaving us empty-handed ?"
Eu diria que nós, mulheres e homens “ocidentais”, carregamos nossa própria bagagem, produto de uma história que converge e diverge daquela de outros povos. Estou acima de tudo inclinada a concordar com o ponto de vista de Martha Fineman, pesquisadora norte-americana, quando ela afirma que nós não precisamos conclamar o Estado para sancionar nossas relações íntimas, mas (exclusivamente) para garantir os direitos e a assistência às pessoas vulneráveis – crianças, idosos, etc. Se a sociedade (política, economia, cultura...) promover verdadeiramente os direitos de todos, a necessidade de casamento como forma de subsistência desaparece para quem quer que seja... E nós teríamos como vantagem a liberdade de procurar formas diversas e diversificadas de intimidade, de sexualidade e de solidariedade que nos satisfaçam...
Mas isso é uma outra história, muito mais longa, que deixo para um outro dia...
sábado, 22 de outubro de 2011
DES LIENS ET DES RAPPORTS*. Miriam Adelman et Lennita Ruggi.
TEXTO APRESENTADO NO XVIII CONGRESSO BRASILEIRO DE PROFESSORES DE FRANÇAIS, Curitiba, Outubro de 2011.
Le thème des relations amoureuses, est le sujet de conversation préferé de bien des gens aujourd’hui. Certain jour, mon ami G., un français qui a habité en Afrique pendant un certain temps et qui croit être une véritable autorité sur son peuple, m’a parlé de son désir d’embrasser la polygamie. Pour lui, et il insiste, c’était impossible satisfaire ses besoins – sexuels, emotionels, intelectuels – avec une seule femme. Ça ne m’a pas surpris parce ce que je connaissais bien cet ami et ses idées saugrenues . De plus , j’avais déja lu un livre sur l´histoire de la construction de l’imaginaire masculin occidental sur les « harem » - « Scheherazade Goes West » par la sociologue et écrivaine marroquine, Fatema Mernissi. Celle-ci décrit la longue tradition discursive des hommes qui cultivent ces fantasmes : ils s’imaginent toujours entourés par des belles femmes, sensuelles, sexuelles, jeunes et bien disposées à leur procurer du plaisir. Je n’ai donc pas hesité à protester avec mon ami, "Ce que peut être paraître interessant pour toi, ne serait jamais le choix des femmes".
C’est ainsi qu’est née ma grande curiosité pour la realité des femmes et familles africaines qui demeurent dans cette structure. Je connaissais seulement les textes de Mernissi, ses mémoires qui racontent principalement des situations où les femmes utilisent des méthodes ingénieuse voire violentes pour résister ou se moquer des règles et coutumes patriarcales . Elle a dit, par exemple :
"In my native Fez medina, women staged huge uproars when their husbands married a second wife, holding funeral-like protests, during which their friends and relatives wailed along with them in the harem courtyards. The fact that polygamy is institutionalized by male law does not make it emotionally acceptable to women. Many queens, as historians have written, suffocated or choked their husbands’ plans to acquire a second wife, or when the rival actually arrived in the home. Still other historical records show that it was often the women who were the victims of [another woman’s] jealousy.” (p. 156)
Après un temps, j’ai connu un professeur africain, directeur d’un lycée dans un des pays les plus pauvres de d’Afrique de l’Ouest, Burkina Faso . Un jour, je lui ai posé des questions sur la polygamie, sur les visions et le vécu des Africains de son pays. Le professeur, une personne très reflexive, m’a répondu initialement à partir de sa propre expérience :
"...de part mon éducation, il me serait très difficile de parler de çela, sans parti pris, car dans la famille dont je suis issu, tout marchait bien. Je me sens plus heureux avec mes deux mères. La preuve en est qu’alors que ma propre mère ne vit plus, j'ai toujours l'impression d’avoir une autre mère."
Ensuite, il m’a proposé son aide pour obtenir une perspective « plus réaliste », en faisant un sondage auprès de ses élèves afin de mieux comprendre l’évolution des points de vue de la jeunesse. Tenant compte des bouleversments liés aux transformations et à l globalisation du monde, les premiers resultats de l’enquête ne me paraissent pas remarquables : des 159 élèves garçons et filles, de 11 à 14 ans ou plus, 14,46% sont « pour la polygamie » (16,98% des garçons et 9.43% des femmes) et le 85,54% des élèves (83,02% des garçons et 90,57% des filles) sont « contre ».
Tout d’abord selon les statistiques connues, les societés qui pratiquent la polygamie , sont presque exclusivement de type « polygynie ». L’homme se marie avec plus d’ une femme ; la situation inverse est peu commune. Si pour mon ami Monsieur G., bien amusé avec son imaginaire « orientaliste » ( pour reprendre le concept d’ Edward Said, enrichi des significations de Mernissi !) et libéral, la polygamie peut permettre « les mêmes possibilités » de liberté et de plaisir aux hommes comme aux femmes. Mais je sens que son argument n’est pas très consistant… Sa proposition est une possibilité presqu’exclusivement théorique, face à la realité historique et culturelle du pouvoir patriarcal et ses infléchissements entre autres religieux et économiques.
On peut argumenter à partir d’autres critères, par exemple en s’appuyant sur les affirmations d’une fille qui a participé à l’enquête de mon ami directeur de lycée. Cette fille fait partie du petit groupe qui s’est prononcé « pour la polygamie »,
"Je suis pour la polygamie parce que si j’étais à la place de mon père j’aurais dû me marier à deux femmes car si tu te maries avec une seule femme au cas oú elle est stérile oú au cas ou elle meurt que ferras-tu ? Une famille polygame permet d’avoir beaucoup d’enfants et permet d’être entouré quand tu serras vieux."
Ce témoignage offre il est vrai une perspective sur le mariage très différente de celle qui est à la base de l’amour passion/amour romantique – un autre mythe de notre culture occidentale moderne, liée à la naissance de l’ individualisme, de la famille dans sa version bourgeoise et protestante et, peut être, des nouvelles formes de domestiquation des femmes. Dans l’énoncé ci-dessus nous pouvons observer l’importance des questions materielles, des besoins de survie des personnes, de leurs préoccupations pour la réproduction des générations – et parfois, peut-être, des formes de solidarité inconnues parmi nous, « les occidentaux ». Les dictons populaires en faveur de la polygamie « quand un c’est bon, deux sera meilleur », contraste avec notre : « Trois c’est trop »
Un des garcons que repond l’ enquete reconnait que la polygamie est un sujet polémique, objet de vives discussions. Selon lui, la polygamie est « le meilleur plan de réinsertion social qui puisse exister », autant pour les hommes que pour les femmes, elle représente « un processus de protection des personnes divorcées, veuves et orphelines ». Relativisant le modèle de la famille bourgeoise, son point de vue impose de repenser les objectifs/attentes familiaux associés à la polygamie : « Le nombre de personnes n’est pas déterminant dans l’harmonie de la vie du foyer. Enfin je pense que la qualité d’un foyer n’est pas liée à la quantité de personnes qui le composent mais à la qualité de ses membres ».
Ainsi, c’ est facile de reconnaitre la dimension pragmatique dans les recits en faveur de la polygamie, comme dans les mots des autre participante de l’ enquête : « la femme est une main d’œuvre productrice de mains d’œuvres ». Dans ce point de vue, stérilité, infidélité ou mortalité sont quelqu’uns des principaux arguments justifiant la « nécessité » pour un homme d’avoir plusieurs femmes.
Les etudiants du Burkina Faso opposés à la polygamie la définisse comme anormal, contre la norme en l’associant a des mots comme« désordres, pauvretre, mésentente, jalousie, maux, maladies, problèmes ». Ces réprobations sont directement liés à la vision chrétienne incorporé par quelquns – et peut-être, aux conflits de la vie quotidienne . La polygamie y « est donc source de tristesse à tous les niveaux ».
Alors que pour ceux qui y sont favorables, c’est la quantité d’enfant qu’ importe, les opposants pensent au contraire, que la qualité de l’éducation des enfants est la question fondamentale. Pour ces derniers, le nombre de femme et implicitement le nombre élevé d’enfants, en milieu pauvre, est vu comme la cause de divers problème sociaux : « enfants de la rue, la mendicité, le banditisme ». Une autre préoccupation affective celle-là est : : « comment sera la gestion (comportement) de l’homme vis-à-vis des ses femmes en terme d’amour ? »
Les opposants comme les défenseurs de la polygamie sont d’accord sur le droit des femmes à accéder à l’amour. La controverse sur la polygamie réside dans le fait de savoir si elle est juste côté cœur, ou si les différences de traitements entre épouses créent haine et amertume. Selon les mots d’une jeune fille : « La polygamie est un péché car Dieu a crée l’homme avec un seul cœur et une seule âme. Pourquoi un seul cœur peut aimer deux cœurs à la fois ? »
La polygamie institutionnalisée rend les femmes mariées vulnérables vis-à-vis des désirs changeants de leurs maris. « Je n’aimerai pas avoir une coépouse dans ma vie », affirme une jeune fille interviewée. Rami, personnage du roman « Niketche » de la mozambicaine Pauline Chiziane pensait la même chose.
Après vingt ans de mariage, Rami découvre que son mari, qu’elle attendait durant douloureusement de longues nuits, avait en réalité plus qu’une amante, il avait une autre famille. Insatisfaction et curiosité l’on poussé à chercher cette autre femme. Elle découvrit que cette seconde femme était également trompée par une troisième. Les recherches amoureuses de Rami l’amenèrent a rencontrer quatre autres épouses vivant en concubinage sans la moindre protection légale. Elle exigeât alors que le mari reconnaisse la trahison et avoue officiellement sa polygamie. Ainsi, selon tradition, elle aurait droit à une part proportionnelle du temps de son compagnon.
S’occupant de cette nouvelle famille élargie avec ses pouvoirs de première épouse, Rami se rapprocha de ces rivales et les aida à obtenir leur indépendance financière, renforçant ainsi ses aspirations en faveur d’un amour moins ingrat. Les disputes pour les faveurs du mari se retournèrent contre lui au point que les épouses lui imposèrent un sixième mariage, arrivant au point de choisir la nouvelle integrante de la famille – refusée ensuite par l’homme.
En plus, Chiziane - l’auteur de ce roman- montre l’importance du temps dans les relations familiales. Celui-ci montre également comment une relation de concurrences entre femmes peut se transformer en relations particulières – relations, en fin, solidaires - entre femmes prisonnières de la poligamie.
Dans les oeuvres de Mernissi et des sénégalaises Mariama Bâ et Fatou Diome, la polygamie n’est pas non plus apreciée par les femmes. Elle est au contraire, clairement representée comme un système qui produit de la souffrance et limite la liberté, les choix et les actions des femmes. Parfois, elle est à l’origine des pires humiliations ou brutalités. Ramatoulaye, personnage du roman de Mariama Bâ, Une si longue lettre, en réflichissant à son expérience et celle des autres femmes au sein des structures polygames, en rêvant d’ une autre vie possible, a dit :
"...being the first pioneers of the promotion of African women, there were very few of us. Men would call us scatter-brained. Others labeled us devils. But many wanted to possess us. How many dreams did we nourish hopelessly that could have been fulfilled as lasting happiness and that we abandoned to embrace others, those that have burst miserably like soap bubbles, leaving us empty-handed ?"
Moi, je dirais que nous, hommes et femmes « occidentaux », emmènons notre propre baggage, produit d’une histoire qui converge et diverge avec celles des autres peuples. Je suis plutôt incliné à être d’accord avec le point de vue de Martha Fineman, chercheuse américaine, lorsqu’elle dit que nous n’avons pas de besoin de faire appel à l’ État pour sanctionner nos relations intimes, mais bien (exclusivement) pour garantir les soins et les droits des personnes vulnérables – les enfants, les anciens, etc. Si la societé (État, économie, culture etc. ) promouvait vraiment les droits de tous, la nécessité du mariage comme forme de subsistance, pour n’importe qui, disparaitrait… Et nous aurions davantage de liberté pour rechercher les formes diverses d’intimité, de sexualité et de solidarité qui nous plaisent...
Ah, mais ceci est une autre histoire, aussi longue, que je laisserai pour un autre jour...
*Remerciements a Germano Pestana e Stéphane Pincemail, pour l'aide avec la version en français.
Le thème des relations amoureuses, est le sujet de conversation préferé de bien des gens aujourd’hui. Certain jour, mon ami G., un français qui a habité en Afrique pendant un certain temps et qui croit être une véritable autorité sur son peuple, m’a parlé de son désir d’embrasser la polygamie. Pour lui, et il insiste, c’était impossible satisfaire ses besoins – sexuels, emotionels, intelectuels – avec une seule femme. Ça ne m’a pas surpris parce ce que je connaissais bien cet ami et ses idées saugrenues . De plus , j’avais déja lu un livre sur l´histoire de la construction de l’imaginaire masculin occidental sur les « harem » - « Scheherazade Goes West » par la sociologue et écrivaine marroquine, Fatema Mernissi. Celle-ci décrit la longue tradition discursive des hommes qui cultivent ces fantasmes : ils s’imaginent toujours entourés par des belles femmes, sensuelles, sexuelles, jeunes et bien disposées à leur procurer du plaisir. Je n’ai donc pas hesité à protester avec mon ami, "Ce que peut être paraître interessant pour toi, ne serait jamais le choix des femmes".
C’est ainsi qu’est née ma grande curiosité pour la realité des femmes et familles africaines qui demeurent dans cette structure. Je connaissais seulement les textes de Mernissi, ses mémoires qui racontent principalement des situations où les femmes utilisent des méthodes ingénieuse voire violentes pour résister ou se moquer des règles et coutumes patriarcales . Elle a dit, par exemple :
"In my native Fez medina, women staged huge uproars when their husbands married a second wife, holding funeral-like protests, during which their friends and relatives wailed along with them in the harem courtyards. The fact that polygamy is institutionalized by male law does not make it emotionally acceptable to women. Many queens, as historians have written, suffocated or choked their husbands’ plans to acquire a second wife, or when the rival actually arrived in the home. Still other historical records show that it was often the women who were the victims of [another woman’s] jealousy.” (p. 156)
Après un temps, j’ai connu un professeur africain, directeur d’un lycée dans un des pays les plus pauvres de d’Afrique de l’Ouest, Burkina Faso . Un jour, je lui ai posé des questions sur la polygamie, sur les visions et le vécu des Africains de son pays. Le professeur, une personne très reflexive, m’a répondu initialement à partir de sa propre expérience :
"...de part mon éducation, il me serait très difficile de parler de çela, sans parti pris, car dans la famille dont je suis issu, tout marchait bien. Je me sens plus heureux avec mes deux mères. La preuve en est qu’alors que ma propre mère ne vit plus, j'ai toujours l'impression d’avoir une autre mère."
Ensuite, il m’a proposé son aide pour obtenir une perspective « plus réaliste », en faisant un sondage auprès de ses élèves afin de mieux comprendre l’évolution des points de vue de la jeunesse. Tenant compte des bouleversments liés aux transformations et à l globalisation du monde, les premiers resultats de l’enquête ne me paraissent pas remarquables : des 159 élèves garçons et filles, de 11 à 14 ans ou plus, 14,46% sont « pour la polygamie » (16,98% des garçons et 9.43% des femmes) et le 85,54% des élèves (83,02% des garçons et 90,57% des filles) sont « contre ».
Tout d’abord selon les statistiques connues, les societés qui pratiquent la polygamie , sont presque exclusivement de type « polygynie ». L’homme se marie avec plus d’ une femme ; la situation inverse est peu commune. Si pour mon ami Monsieur G., bien amusé avec son imaginaire « orientaliste » ( pour reprendre le concept d’ Edward Said, enrichi des significations de Mernissi !) et libéral, la polygamie peut permettre « les mêmes possibilités » de liberté et de plaisir aux hommes comme aux femmes. Mais je sens que son argument n’est pas très consistant… Sa proposition est une possibilité presqu’exclusivement théorique, face à la realité historique et culturelle du pouvoir patriarcal et ses infléchissements entre autres religieux et économiques.
On peut argumenter à partir d’autres critères, par exemple en s’appuyant sur les affirmations d’une fille qui a participé à l’enquête de mon ami directeur de lycée. Cette fille fait partie du petit groupe qui s’est prononcé « pour la polygamie »,
"Je suis pour la polygamie parce que si j’étais à la place de mon père j’aurais dû me marier à deux femmes car si tu te maries avec une seule femme au cas oú elle est stérile oú au cas ou elle meurt que ferras-tu ? Une famille polygame permet d’avoir beaucoup d’enfants et permet d’être entouré quand tu serras vieux."
Ce témoignage offre il est vrai une perspective sur le mariage très différente de celle qui est à la base de l’amour passion/amour romantique – un autre mythe de notre culture occidentale moderne, liée à la naissance de l’ individualisme, de la famille dans sa version bourgeoise et protestante et, peut être, des nouvelles formes de domestiquation des femmes. Dans l’énoncé ci-dessus nous pouvons observer l’importance des questions materielles, des besoins de survie des personnes, de leurs préoccupations pour la réproduction des générations – et parfois, peut-être, des formes de solidarité inconnues parmi nous, « les occidentaux ». Les dictons populaires en faveur de la polygamie « quand un c’est bon, deux sera meilleur », contraste avec notre : « Trois c’est trop »
Un des garcons que repond l’ enquete reconnait que la polygamie est un sujet polémique, objet de vives discussions. Selon lui, la polygamie est « le meilleur plan de réinsertion social qui puisse exister », autant pour les hommes que pour les femmes, elle représente « un processus de protection des personnes divorcées, veuves et orphelines ». Relativisant le modèle de la famille bourgeoise, son point de vue impose de repenser les objectifs/attentes familiaux associés à la polygamie : « Le nombre de personnes n’est pas déterminant dans l’harmonie de la vie du foyer. Enfin je pense que la qualité d’un foyer n’est pas liée à la quantité de personnes qui le composent mais à la qualité de ses membres ».
Ainsi, c’ est facile de reconnaitre la dimension pragmatique dans les recits en faveur de la polygamie, comme dans les mots des autre participante de l’ enquête : « la femme est une main d’œuvre productrice de mains d’œuvres ». Dans ce point de vue, stérilité, infidélité ou mortalité sont quelqu’uns des principaux arguments justifiant la « nécessité » pour un homme d’avoir plusieurs femmes.
Les etudiants du Burkina Faso opposés à la polygamie la définisse comme anormal, contre la norme en l’associant a des mots comme« désordres, pauvretre, mésentente, jalousie, maux, maladies, problèmes ». Ces réprobations sont directement liés à la vision chrétienne incorporé par quelquns – et peut-être, aux conflits de la vie quotidienne . La polygamie y « est donc source de tristesse à tous les niveaux ».
Alors que pour ceux qui y sont favorables, c’est la quantité d’enfant qu’ importe, les opposants pensent au contraire, que la qualité de l’éducation des enfants est la question fondamentale. Pour ces derniers, le nombre de femme et implicitement le nombre élevé d’enfants, en milieu pauvre, est vu comme la cause de divers problème sociaux : « enfants de la rue, la mendicité, le banditisme ». Une autre préoccupation affective celle-là est : : « comment sera la gestion (comportement) de l’homme vis-à-vis des ses femmes en terme d’amour ? »
Les opposants comme les défenseurs de la polygamie sont d’accord sur le droit des femmes à accéder à l’amour. La controverse sur la polygamie réside dans le fait de savoir si elle est juste côté cœur, ou si les différences de traitements entre épouses créent haine et amertume. Selon les mots d’une jeune fille : « La polygamie est un péché car Dieu a crée l’homme avec un seul cœur et une seule âme. Pourquoi un seul cœur peut aimer deux cœurs à la fois ? »
La polygamie institutionnalisée rend les femmes mariées vulnérables vis-à-vis des désirs changeants de leurs maris. « Je n’aimerai pas avoir une coépouse dans ma vie », affirme une jeune fille interviewée. Rami, personnage du roman « Niketche » de la mozambicaine Pauline Chiziane pensait la même chose.
Après vingt ans de mariage, Rami découvre que son mari, qu’elle attendait durant douloureusement de longues nuits, avait en réalité plus qu’une amante, il avait une autre famille. Insatisfaction et curiosité l’on poussé à chercher cette autre femme. Elle découvrit que cette seconde femme était également trompée par une troisième. Les recherches amoureuses de Rami l’amenèrent a rencontrer quatre autres épouses vivant en concubinage sans la moindre protection légale. Elle exigeât alors que le mari reconnaisse la trahison et avoue officiellement sa polygamie. Ainsi, selon tradition, elle aurait droit à une part proportionnelle du temps de son compagnon.
S’occupant de cette nouvelle famille élargie avec ses pouvoirs de première épouse, Rami se rapprocha de ces rivales et les aida à obtenir leur indépendance financière, renforçant ainsi ses aspirations en faveur d’un amour moins ingrat. Les disputes pour les faveurs du mari se retournèrent contre lui au point que les épouses lui imposèrent un sixième mariage, arrivant au point de choisir la nouvelle integrante de la famille – refusée ensuite par l’homme.
En plus, Chiziane - l’auteur de ce roman- montre l’importance du temps dans les relations familiales. Celui-ci montre également comment une relation de concurrences entre femmes peut se transformer en relations particulières – relations, en fin, solidaires - entre femmes prisonnières de la poligamie.
Dans les oeuvres de Mernissi et des sénégalaises Mariama Bâ et Fatou Diome, la polygamie n’est pas non plus apreciée par les femmes. Elle est au contraire, clairement representée comme un système qui produit de la souffrance et limite la liberté, les choix et les actions des femmes. Parfois, elle est à l’origine des pires humiliations ou brutalités. Ramatoulaye, personnage du roman de Mariama Bâ, Une si longue lettre, en réflichissant à son expérience et celle des autres femmes au sein des structures polygames, en rêvant d’ une autre vie possible, a dit :
"...being the first pioneers of the promotion of African women, there were very few of us. Men would call us scatter-brained. Others labeled us devils. But many wanted to possess us. How many dreams did we nourish hopelessly that could have been fulfilled as lasting happiness and that we abandoned to embrace others, those that have burst miserably like soap bubbles, leaving us empty-handed ?"
Moi, je dirais que nous, hommes et femmes « occidentaux », emmènons notre propre baggage, produit d’une histoire qui converge et diverge avec celles des autres peuples. Je suis plutôt incliné à être d’accord avec le point de vue de Martha Fineman, chercheuse américaine, lorsqu’elle dit que nous n’avons pas de besoin de faire appel à l’ État pour sanctionner nos relations intimes, mais bien (exclusivement) pour garantir les soins et les droits des personnes vulnérables – les enfants, les anciens, etc. Si la societé (État, économie, culture etc. ) promouvait vraiment les droits de tous, la nécessité du mariage comme forme de subsistance, pour n’importe qui, disparaitrait… Et nous aurions davantage de liberté pour rechercher les formes diverses d’intimité, de sexualité et de solidarité qui nous plaisent...
Ah, mais ceci est une autre histoire, aussi longue, que je laisserai pour un autre jour...
*Remerciements a Germano Pestana e Stéphane Pincemail, pour l'aide avec la version en français.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Proposta
Entrando na terceira década do século passado, a escritora Virginia Woolf publicou o ensaio Um Teto Todo Seu, uma profunda reflexão sobre a posição das mulheres em relação às instituições de produção cultural da modernidade. Nas suas perguntas retóricas sobre o destino da “irmã de Shakespeare”, e nas observações astutas de sua protagonista “fictícia” que passeia pelo campus de uma grande universidade inglesa e percebe que, como mulher, é um ser estranho, alheio à vida acadêmica e intelectual ali promovida e protegida, encontramos o início de uma grande busca – e luta – por um espaço para a criação artística e intelectual das mulheres, um lugar para trabalhar, escrever, falar e serem ouvidas.
Três décadas mais tarde, a filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir volta às questões levantadas por Woolf, a partir do cenário político do pós-guerra, ainda muito pouco receptivo à voz das mulheres. Beauvoir se debruça com extrema coragem sobre a história do cânone filosófico e literário ocidental, um cânone construído por homens e a partir de suas visões masculinas sobre o mundo, sobre eles mesmos e sobre esse grande Outro do seu discurso: a Mulher. Construção mistificada feita a partir do desejo e dos interesses de sujeitos homens, que poucas vezes queriam ou sabiam ouvir e perceber o que são, o que sentem e pensam as mulheres reais, isto é, esses seres humanos que “se tornaram mulheres” numa sociedade e dentro de uma cultura que as associava com “o Sexo”, “o corpo” e “a imanência” em contraposição à “transcendência” cultural dos homens.
Com a “segunda onda feminista” e a revolução por ela produzida na academia, são criados e se consolidam os primeiro programas de Women’s Studies e a partir deles ou fora da academia, uma vigorosa produção cultural direta ou indiretamente influenciada pela perspectiva feminista procurou dar visibilidade às experiências e expressões das mulheres na história, na sociedade e na cultura. Foram questionados de maneira sistemática e enfática os porquês e as conseqüências da exclusão das mulheres dos mundos do saber legítimo em todas as áreas das ciências e das humanidades. Se por um lado a nova historiografia feminista demonstrava como as mulheres, ao longo da história forçaram as fronteiras de gênero e enfrentaram as limitações impostas por sistemas estético-políticos nos marcados terrenos da cultura escrita e das artes, por outro, vivia-se um momento de verdadeira ebulição da produção cultural feminina. Contudo, não se trata somente de uma luta política da inclusão no cânone ou em sistemas acadêmicos e profissionais, tampouco da política identitária da diferença (literatura feminina, cinema de mulheres, arte feminina). Intensos debates se seguem sobre “gênero e produção cultural”, o imaginário masculino e sua desconstrução, sobre a diversidade de experiências e vozes femininas, bem como sobre a pluralidade de sentidos da política cultural das diferenças.
Tendo em vista a consolidação da área dos estudos de gênero no meio acadêmico brasileiro, bem como sua inserção e crescimento na Universidade Federal do Paraná, queremos criar um espaço acadêmico interdisciplinar voltado para o conhecimento e divulgação desta intensa e extensa produção cultural das mulheres no passado e na contemporaneidade. O debate, a reflexão e as pesquisas sobre esta temática se desenvolvem através da produção acadêmica e nos espaços de interlocução dos congressos e colóquios. Contudo, notamos que esta discussão acaba por se restringir mais aos estudos literários, quando sabemos que a produção cultural das mulheres se dá em atividades e meios expressivos os mais diversos.
Com este grupo interdisciplinar queremos estabelecer na UFPR um espaço acadêmico pluralista que abrigue a reflexão e a produção sobre a escrita de mulheres, o cinema, as artes plásticas, a música, a fotografia e outras tantas formas culturais.
Objetivos
1- Discutir e promover o estudo da produção cultural desenvolvida por mulheres a fim de compreender a sua contribuição e divulgar suas vozes na literatura, no cinema, na arte e nos demais processos de produção cultural.
2- Reunir pesquisadoras/es de disciplinas com interesses neste campo, como a história, a sociologia, a literatura, a lingüística, para promover o diálogo, a troca de conhecimento e fomentar pesquisas, bem como estimular o interesse pela temática entre alunos de graduação e pós-graduação.
3- Promover seminários, conferências, eventos de natureza acadêmica e estimular a oferta de disciplinas sobre a temática nos cursos de graduação e de pós-graduação das pesquisadoras participantes a fim de fomentar novas pesquisas de bacharelado e de iniciação científica, bem como de mestrado e doutorado.
Através destes objetivos o grupo de pesquisa se posiciona no sentido de participar das lutas simbólicas e políticas que dão visibilidade à contribuição histórica das mulheres à cultura em tempos e espaços diferentes, esforços estes situados, teórica e metodologicamente, em proximidade ou dentro dos campos da teoria feminista, da teoria queer, dos estudos de gênero, dos estudos culturais e dos estudos pós –coloniais.
Três décadas mais tarde, a filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir volta às questões levantadas por Woolf, a partir do cenário político do pós-guerra, ainda muito pouco receptivo à voz das mulheres. Beauvoir se debruça com extrema coragem sobre a história do cânone filosófico e literário ocidental, um cânone construído por homens e a partir de suas visões masculinas sobre o mundo, sobre eles mesmos e sobre esse grande Outro do seu discurso: a Mulher. Construção mistificada feita a partir do desejo e dos interesses de sujeitos homens, que poucas vezes queriam ou sabiam ouvir e perceber o que são, o que sentem e pensam as mulheres reais, isto é, esses seres humanos que “se tornaram mulheres” numa sociedade e dentro de uma cultura que as associava com “o Sexo”, “o corpo” e “a imanência” em contraposição à “transcendência” cultural dos homens.
Com a “segunda onda feminista” e a revolução por ela produzida na academia, são criados e se consolidam os primeiro programas de Women’s Studies e a partir deles ou fora da academia, uma vigorosa produção cultural direta ou indiretamente influenciada pela perspectiva feminista procurou dar visibilidade às experiências e expressões das mulheres na história, na sociedade e na cultura. Foram questionados de maneira sistemática e enfática os porquês e as conseqüências da exclusão das mulheres dos mundos do saber legítimo em todas as áreas das ciências e das humanidades. Se por um lado a nova historiografia feminista demonstrava como as mulheres, ao longo da história forçaram as fronteiras de gênero e enfrentaram as limitações impostas por sistemas estético-políticos nos marcados terrenos da cultura escrita e das artes, por outro, vivia-se um momento de verdadeira ebulição da produção cultural feminina. Contudo, não se trata somente de uma luta política da inclusão no cânone ou em sistemas acadêmicos e profissionais, tampouco da política identitária da diferença (literatura feminina, cinema de mulheres, arte feminina). Intensos debates se seguem sobre “gênero e produção cultural”, o imaginário masculino e sua desconstrução, sobre a diversidade de experiências e vozes femininas, bem como sobre a pluralidade de sentidos da política cultural das diferenças.
Tendo em vista a consolidação da área dos estudos de gênero no meio acadêmico brasileiro, bem como sua inserção e crescimento na Universidade Federal do Paraná, queremos criar um espaço acadêmico interdisciplinar voltado para o conhecimento e divulgação desta intensa e extensa produção cultural das mulheres no passado e na contemporaneidade. O debate, a reflexão e as pesquisas sobre esta temática se desenvolvem através da produção acadêmica e nos espaços de interlocução dos congressos e colóquios. Contudo, notamos que esta discussão acaba por se restringir mais aos estudos literários, quando sabemos que a produção cultural das mulheres se dá em atividades e meios expressivos os mais diversos.
Com este grupo interdisciplinar queremos estabelecer na UFPR um espaço acadêmico pluralista que abrigue a reflexão e a produção sobre a escrita de mulheres, o cinema, as artes plásticas, a música, a fotografia e outras tantas formas culturais.
Objetivos
1- Discutir e promover o estudo da produção cultural desenvolvida por mulheres a fim de compreender a sua contribuição e divulgar suas vozes na literatura, no cinema, na arte e nos demais processos de produção cultural.
2- Reunir pesquisadoras/es de disciplinas com interesses neste campo, como a história, a sociologia, a literatura, a lingüística, para promover o diálogo, a troca de conhecimento e fomentar pesquisas, bem como estimular o interesse pela temática entre alunos de graduação e pós-graduação.
3- Promover seminários, conferências, eventos de natureza acadêmica e estimular a oferta de disciplinas sobre a temática nos cursos de graduação e de pós-graduação das pesquisadoras participantes a fim de fomentar novas pesquisas de bacharelado e de iniciação científica, bem como de mestrado e doutorado.
Através destes objetivos o grupo de pesquisa se posiciona no sentido de participar das lutas simbólicas e políticas que dão visibilidade à contribuição histórica das mulheres à cultura em tempos e espaços diferentes, esforços estes situados, teórica e metodologicamente, em proximidade ou dentro dos campos da teoria feminista, da teoria queer, dos estudos de gênero, dos estudos culturais e dos estudos pós –coloniais.
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