Entrando na terceira década do século passado, a escritora Virginia Woolf publicou o ensaio Um Teto Todo Seu, uma profunda reflexão sobre a posição das mulheres em relação às instituições de produção cultural da modernidade. Nas suas perguntas retóricas sobre o destino da “irmã de Shakespeare”, e nas observações astutas de sua protagonista “fictícia” que passeia pelo campus de uma grande universidade inglesa e percebe que, como mulher, é um ser estranho, alheio à vida acadêmica e intelectual ali promovida e protegida, encontramos o início de uma grande busca – e luta – por um espaço para a criação artística e intelectual das mulheres, um lugar para trabalhar, escrever, falar e serem ouvidas.
Três décadas mais tarde, a filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir volta às questões levantadas por Woolf, a partir do cenário político do pós-guerra, ainda muito pouco receptivo à voz das mulheres. Beauvoir se debruça com extrema coragem sobre a história do cânone filosófico e literário ocidental, um cânone construído por homens e a partir de suas visões masculinas sobre o mundo, sobre eles mesmos e sobre esse grande Outro do seu discurso: a Mulher. Construção mistificada feita a partir do desejo e dos interesses de sujeitos homens, que poucas vezes queriam ou sabiam ouvir e perceber o que são, o que sentem e pensam as mulheres reais, isto é, esses seres humanos que “se tornaram mulheres” numa sociedade e dentro de uma cultura que as associava com “o Sexo”, “o corpo” e “a imanência” em contraposição à “transcendência” cultural dos homens.
Com a “segunda onda feminista” e a revolução por ela produzida na academia, são criados e se consolidam os primeiro programas de Women’s Studies e a partir deles ou fora da academia, uma vigorosa produção cultural direta ou indiretamente influenciada pela perspectiva feminista procurou dar visibilidade às experiências e expressões das mulheres na história, na sociedade e na cultura. Foram questionados de maneira sistemática e enfática os porquês e as conseqüências da exclusão das mulheres dos mundos do saber legítimo em todas as áreas das ciências e das humanidades. Se por um lado a nova historiografia feminista demonstrava como as mulheres, ao longo da história forçaram as fronteiras de gênero e enfrentaram as limitações impostas por sistemas estético-políticos nos marcados terrenos da cultura escrita e das artes, por outro, vivia-se um momento de verdadeira ebulição da produção cultural feminina. Contudo, não se trata somente de uma luta política da inclusão no cânone ou em sistemas acadêmicos e profissionais, tampouco da política identitária da diferença (literatura feminina, cinema de mulheres, arte feminina). Intensos debates se seguem sobre “gênero e produção cultural”, o imaginário masculino e sua desconstrução, sobre a diversidade de experiências e vozes femininas, bem como sobre a pluralidade de sentidos da política cultural das diferenças.
Tendo em vista a consolidação da área dos estudos de gênero no meio acadêmico brasileiro, bem como sua inserção e crescimento na Universidade Federal do Paraná, queremos criar um espaço acadêmico interdisciplinar voltado para o conhecimento e divulgação desta intensa e extensa produção cultural das mulheres no passado e na contemporaneidade. O debate, a reflexão e as pesquisas sobre esta temática se desenvolvem através da produção acadêmica e nos espaços de interlocução dos congressos e colóquios. Contudo, notamos que esta discussão acaba por se restringir mais aos estudos literários, quando sabemos que a produção cultural das mulheres se dá em atividades e meios expressivos os mais diversos.
Com este grupo interdisciplinar queremos estabelecer na UFPR um espaço acadêmico pluralista que abrigue a reflexão e a produção sobre a escrita de mulheres, o cinema, as artes plásticas, a música, a fotografia e outras tantas formas culturais.

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