quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Escritoras: vozes e visões, de Virginia Woolf a Clarice Lispector e as escritoras da geração Beat
[...] pensei no órgão ressoando na capela e nas portas fechadas da biblioteca; e pensei em como é desagradável se ser trancada do lado de fora; e pensei em como talvez seja pior se ser trancada do lado de dentro; e, pensando na segurança e na prosperidade de um sexo e na pobreza e insegurança do outro; e no efeito da tradição e na falta da tradição na mente de um escritor , pensei finalmente que era hora de recolher a carcaça amarfanhada do dia , com suas discussões e impressões e sua raiva e seu riso; e atirá-la num canto. Milhares de estrelas cintilavam nos ermos azuis do céu. Parecia que estava a sós com uma companhia inescrutável.”
Virginia Woolf, Um Teto todo Seu.
Parto deste epigrafe, retirado do famoso ensaio da Virginia Woolf sobre o fazer literário e as mulheres, sobre os efeitos materiais e simbólicos de se encontrar “do lado de fora” das instituições do saber e do cânone. Talvez a primeira manifestação modernista deste tipo, é com certeza uma das mais belas e serve para inspirar estas resumidas reflexões sobre a emergência histórica de vozes e visões femininas. Isto é, vou falar sobre como vozes de mulheres irrompem no palco – parto histórico difícil! – da “tradição” literária e filosófica, e da teoria social moderna também, a conquista da posição de interlocutora/s. É um processo que pertence de uma forma particular à história do século XX e como tal, faz parte das conquistas do feminismo – o que de nenhuma maneira equivale dizer que todas as mulheres que conquistam este espaço se identifiquem como feministas ou com o feminismo. Ainda mais, o reconhecimento da importante produção de textos escritos por mulheres, produção que vai in crescendo ao longo do século, também dista muito de representar uma defesa do conceito de “escrita feminina” – importante discussão que se deu na crítica literária feminista sobre a possibilidade de identificar formas narrativas particularmente “femininas”, mas que produziu uma serie de problemas, como bem alerta a crítica literária argentina Alejandra Josiewicz. 1 Quando falo aqui sobre mulheres escritoras, não parto do princípio de formas de escrever necessariamente compartilhadas por elas senão aponto para a conquista de novos lugares da fala, lugares nos quais as experiências diversas vividas por mulheres diversas e diferentes entre si, gozam de nova legitimidade. Ler o que elas escrevem nos permite então apreender outras experiências e por vezes modificar concepções da vida individual e social que foram – como Virginia Woolf e Simone de Beauvoir tão bem nos alertaram – historicamente formuladas a partir de experiências masculinas, apoiadas em formas informais e institucionais de exclusão. Como noutro lugar já escrevi (Adelman, 2007), focalizo aqui a contribuição de escritoras modernistas - mulheres que “produziam cultura” (strito sensu) basicamente na fase que vai desde as últimas décadas S.XIX até o momento da revolução da “segunda onda feminista”. O que vai se produzir a partir principalmente deste segundo momento é o contexto de escuta. Como veremos aqui, à maneira de conclusão, é que o legado das pioneiras virá a fruição nesse novo momento em que muitas mulheres – como parte de um movimento que se faz massiva – ganham acesso aos espaços institucionais da cultura. Um ganho, mas também uma batalha que continua hoje...
O texto completo desta fala - proferido no dia 10 de dezembro de 2011, no evento A Hora da Clarice, na Livraria da Casa, Curitiba - vocês encontram no
http://ufpr.academia.edu/MiriamAdelman/Papers/1232323/Escritoras_de_Virginia_Woolf_a_Clarice_Lispector_e_as_escritoras_da_Geracao_Beat
Colegas, vamos compartilhando nosso trabalho!!
abraço, Miriam
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