terça-feira, 8 de novembro de 2011

RELACIONAMENTOS E RELAÇÕES * por Miriam Adelman e Lennita Ruggi

TEXTO APRESENTADO NO XVIII CONGRESSO BRASILEIRO DE PROFESSORES DE FRANÇÊS, Curitiba, Outubro de 2011.
O tema dos relacionamentos amorosos é assunto de conversação preferido para muitas pessoas atualmente. Certo dia, meu amigo G., um francês que viveu na África durante certo tempo e que acredita ser uma autoridade no continente, me falou de seu desejo de abraçar a poligamia. Ele acredita resolutamente ser impossível satisfazer seus desejos – sexuais, emocionais, intelectuais – com apenas uma mulher. Isso não me surpreendeu, pois conheço bem a pessoa e suas bizarrices. Também conhecia um livro a respeito da história do imaginário ocidental masculino sobre o “harém” chamado “Sheherazade Goes West”, da socióloga e escritora marroquina Fatema Mernissi. O livro descreve uma longa tradição discursiva das fantasias masculinas: os homens se imaginam cercados por mulheres belas, sensuais, sexuais e jovens, sempre disponíveis a sua busca por prazer. Foi por isso que não hesitei em contestar meu amigo: “O que pode parecer interessante para você não será jamais a escolha das mulheres”.
Foi assim que nasceu minha grande curiosidade pela realidade das mulheres e das famílias africanas que vivem sob estrutura poligâmica. Conhecia tão somente os textos de Mernissi, suas memórias que descrevem principalmente situações nas quais as mulheres empregam métodos ora engenhosos ora violentos para resistir ou ridicularizar as regras e costumes patriarcais. Ela afirma, por exemplo:

"In my native Fez medina, women staged huge uproars when their husbands married a second wife, holding funeral-like protests, during which their friends and relatives wailed along with them in the harem courtyards. The fact that polygamy is institutionalized by male law does not make it emotionally acceptable to women. Many queens, as historians have written, suffocated or choked their husbands’ plans to acquire a second wife, or when the rival actually arrived in the home. Still other historical records show that it was often the women who were the victims of [another woman’s] jealousy.”
(p. 156)
Depois de um tempo, conheci um professor africano, diretor de um colégio em um dos países mais pobres do oeste da África, Burkina Faso. Um dia, lhe perguntei sobre poligamia, sobre as visões e testemunhos locais. O professor, muito reflexivo, respondeu inicialmente a partir de sua própria experiência:
“...com base em minha educação, será muito difícil falar do assunto sem tomar partido, pois na família em que fui criado tudo corria bem. Eu me sentia muito feliz com minhas duas mães. A prova é que agora que minha própria mãe esta morta, vivo sempre com a impressão de ter outra mãe”.
Posteriormente, ele me ofereceu sua ajuda para obter uma perspectiva “mais realista” sobre a questao, realizando uma sondagem junto a seus/suas estudantes a fim de compreender melhor a evolução dos pontos de vista da juventude. Tendo em conta os imponentes efeitos de transformações históricas e a globalização mundial, os primeiros resultados da enquete não me pareceram relevantes: dos 159 alunos e alunas de 11 a 14 anos de idade ou mais, 14,46% são “a favor da poligamia” (16,98% dos rapazes e 9,43% das moças) e 85,54% (83,02% dos rapazes e 90,57% das moças) são “contra”.
Antes de mais nada, de acordo com os informações conhecidas, as sociedades que praticam a poligamia a poliginia é quase exclusiva. O homem se casa com mais de uma mulher; a situação inversa é pouco comum. Se para meu amigo Senhor G., perfeitamente feliz com seu imaginário “orientalista” (para retomar o conceito de Edward Said enriquecido pelos argumentos de Mernissi!) e liberal, a poligamia pode oferecer “as mesmas possibilidades” de liberdade e de prazer a homens e mulheres. Mas sinto que seu argumento não é consistente... Sua proposta é uma possibilidade quase exclusivamente teórica frente à realidade histórica e cultural do poder patriarcal e seus desdobramentos religiosos e econômicos, entre outros.
É possível também raciocinar a partir de outros critérios, como os utilizados por uma das estudantes participantes da enquete em Burkina Faso. Ela faz parte do pequeno grupo que se declarou “a favor da poligamia”:
“Eu sou a favor da poligamia porque se estivesse no lugar do meu pai eu deveria me casar com duas mulheres, pois se você se casa com apenas uma mulher, no caso dela ser estéril ou dela falecer, o que você fará? Uma família poligâmica possibilita ter muitas crianças e garante que você tenha companhia quando for velho”.
Esse testemunho oferece uma perspectiva sobre a poligamia, bastante diversa daquela que tem como base a paixão/o amor romântico – um outro mito de nossa cultura ocidental moderna, situado no nascimento do individualismo, da família em sua versão burguesa e protestante, além de possivelmente relacionado a novas formas de domesticação das mulheres. No enunciado acima podemos observar a importância de questões materiais, das necessidades de sobrevivência das pessoas, de suas preocupações com a reprodução das gerações – e talvez também de formas de solidariedade desconhecida para nós, “ocidentais”. Os ditados populares a favor da poligamia, « quand un c’est bon, deux sera meilleur » (onde um bom, dois será melhor), contrastam enfaticamente com nosso “três é demais”.
Um dos rapazes entrevistados reconhece que a poligamia é assunto polêmico, objeto de discussões acirradas. Em sua opinião, a poligamia é boa por ser “o melhor plano de reinserção social que pode existir”, igualmente benéfica para homens e mulheres, pois representa “uma instituição de proteção das pessoas divorciadas, viúvas e órfãs”. Relativizando o modelo de família nuclear burguesa, sua declaração exige repensar as expectativas familiares com que encaramos a poligamia: “O número de pessoas não é determinante na harmonia da vida de um lar. Enfim, eu penso que a qualidade de um lar não é determinada pela quantidade de pessoas que o compõe, mas pela qualidade de seus membros”.
Ao mesmo tempo, é relativamente fácil reconhecer a dimensão pragmática da tradição discursiva a favor da poligamia, na qual “a mulher é uma mão de obra produtora de outras mãos de obra”, nas palavras de outro participante da enquete. Assim, esterilidade, infidelidade ou morte são alguns dos principais argumentos a sustentar a “necessidade” de um homem “ter” mais de uma esposa.
As/os estudantes de Burkina Faso que se posicionaram de maneira contrária à poligamia a constroem como a-normal, em contraste com a norma, usando palavras como “desordem, pobreza, discórdia, ciúme, dor, doenças, problemas”. Essas são reprovações diretamente ligadas a perspectivas religiosas, nas quais a poligamia “é portanto fonte de tristeza em todos os níveis”.
Enquanto para os/as favoráveis à poligamia importava a quantidade de filhos/as, para os/as contrários a qualidade da criação é muito mais relevante. O acúmulo de mulheres e consequentemente de crianças, em meio a recursos limitados, é visto como causa de diversas problemas sociais: “crianças de rua, mendicância, criminalidade”. A preocupação social é paralela aos argumentos relacionados a expectativas afetivas: “como será a gestão do homem frente a suas esposas em termos de amor?”
Partidários e contrários à poligamia concordam que todas as mulheres têm direito ao amor, a controvérsia reside em saber se é possível justiça no terreno do coração, ou se as preferências criarão inveja e amargura. Nas palavras de uma moça : “a poligamia é um pecado, pois Deus criou o homem com uma única alma. Como um único coração pode amar dois corações por vez?”
A poligamia institucionalizada torna mulheres casadas vulneráveis às decisões oscilantes de seus maridos. “Eu não gostaria de ter uma co-esposa em minha vida, afirma uma das moças entrevistadas. O mesmo pensava Rami, personagem do romance Niketche: uma história de poligamia da moçambicana Pauline Chiziane.
Após vinte anos de casamento, Rami descobre que o marido, por quem espera em longas noites de sofrimento, têm mais do que uma amante: tem outra família. Insatisfação e curiosidade a fazem buscar a outra, descobrindo que também essa foi preterida em favor de uma terceira. A investigação amorosa de Rami a leva ao encontro de quatro outras esposas, que vivem em concubinato sem qualquer proteção legal. Ela exige que o marido institucionalize a traição e torne pública sua poligamia, apelando para as tradições que a dão direto a uma fatia proporcional do tempo de seu amado.
Gerindo a nova família ampliada com poderes de primeira esposa, Rami se aproxima das rivais e paulatinamente as ajuda a conquistar independência financeira, fortalecendo suas aspirações em favor de um amor menos ingrato. A disputa pelo marido se transforma em má vontade para com ele, chegando ao ponto das esposas decidirem pela necessidade de um sexto casamento, ajudando inclusive a escolher a nova integrante da família – recusada pelo marido.
Chiziane demonstra como o tempo é um fator poderoso das relações familiares e como mesmo uma traição pode se transformar em espaço para relações significativas entre mulheres presas nas amarras da poligamia, exigindo repensar as abordagens dicotômicas e leituras superficiais.
Nas obras de Mernissi e das senegalesas Mariama Bá e Fatou Diome, a poligamia também não é apreciada pelas mulheres. Ao contrário: ela é claramente representada como um sistema que produz sofrimento e limita a liberdade, as escolhas e as ações das mulheres. Por vezes, ela está na origem das piores humilhações ou brutalidades. Ramatoulaulaye, personagem do romance de Marima Bá, Une si longue lettre, ao refletir sobre sua própria experiência e a de outras mulheres vivendo em estruturas poligâmicas, revela um outro ponto de vista:

"...being the first pioneers of the promotion of African women, there were very few of us. Men would call us scatter-brained. Others labeled us devils. But many wanted to possess us. How many dreams did we nourish hopelessly that could have been fulfilled as lasting happiness and that we abandoned to embrace others, those that have burst miserably like soap bubbles, leaving us empty-handed ?"
Eu diria que nós, mulheres e homens “ocidentais”, carregamos nossa própria bagagem, produto de uma história que converge e diverge daquela de outros povos. Estou acima de tudo inclinada a concordar com o ponto de vista de Martha Fineman, pesquisadora norte-americana, quando ela afirma que nós não precisamos conclamar o Estado para sancionar nossas relações íntimas, mas (exclusivamente) para garantir os direitos e a assistência às pessoas vulneráveis – crianças, idosos, etc. Se a sociedade (política, economia, cultura...) promover verdadeiramente os direitos de todos, a necessidade de casamento como forma de subsistência desaparece para quem quer que seja... E nós teríamos como vantagem a liberdade de procurar formas diversas e diversificadas de intimidade, de sexualidade e de solidariedade que nos satisfaçam...
Mas isso é uma outra história, muito mais longa, que deixo para um outro dia...


[i] Agradecemos a Germano Pestane e Stéphane Pincemail, por ajudar com a versão em francês.